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sábado, 15 de abril de 2017

Minhas palavras iniciais

MINHAS PALAVRAS INICIAIS

                                                                   Regina Barros Leal

Talvez não saiba ao certo como tudo começou. Sei do dia em que fiz minha primeira crônica. Inquieta por não conseguir conciliar o sono, resolvi escrever. Veio quase de súbito a lembrança da cena no Shopping. As idéias fluíam impulsivamente. Foi inusitado! A emoção invadiu-me por haver descoberto a preciosidade da inédita circunstância.

Assim, iniciei minha travessia. Receosa, tímida, mas determinada a escrever. Descobri que posso deixar um legado, expressões de uma mulher que, em sua maturidade, decidiu enveredar por uma trilha que, a meu ver, não terá volta. Não sei o que virá depois, apenas constatei querer continuar. Despretensiosamente, penetro nesse universo subjetivo, deleitando-me com o que produzo,  ora resgatando lembranças, ora contando fatos visíveis ao  meu olhar atento ao cotidiano, em outras, a narrativa de emoções e experiências permeadas de valores sociais, éticos e humanos. Lembro-me também do diário de adolescente, das cartas escritas aos filhos, dos bilhetes apressados quando das viagens aligeiradas de trabalho, das poesias juvenis, das cartas de amor, enfim, sutis vestígios de tempos preciosos.

Sou uma mulher comum e, por sê-lo, relato fatos corriqueiros, cotidianos, recortados de subjetividade feminina na tentativa de expressar, com sutileza terna, a complexidade, acoplada à simplicidade de meu olhar sobre a vida, quer em tempos idos, quer em ocasiões presentes.
        
           Fagulhas Literárias não busca retratar toda a trama e a extensão dos significados humanos de minha existência. Contudo, desnuda fragmentos de uma trajetória ao longo desses anos, marcando pois, uma singularidade que se mistura aos outros eu que foram indispensáveis em minha história.
        

           Nesse percurso, revejo pessoas que se fizeram presentes, ambiências e espaços entrelaçados de amor, saudade, sonhos e projetos, bem como dor, ansiedade, desabafos e revelações costuradas com serenidade. 

Solidão

                                              Regina Barros Leal

O quarto escuro, as janelas fechadas e pouca ventilação. Deitado, ele se entregava ao desencanto da vontade perdida. A dor n'alma fragilizava suas forças. Lamentava-se... Um longo lamento... Falas silentes da solidão.
         Na mesa ao lado, um maço de cigarros e, no cinzeiro de um verde opaco, restos de cinzas. O cheiro era forte, não só da nicotina que impregnava o ambiente, mas o odor forte da desilusão, do desencanto de uma alma sofrida revelando um cenário marcado pelo sofrimento de quem desconheceu a ventura de ser feliz naquele instante.

         Palavras de estimulo, de compreensão, de paciência eram ditas, mas, João não conseguia entender. Mostrava-se atônito diante do próprio desengano e derramava o seu olhar perdido pelos cantos do quarto escuro.

Lamento


Lamento

                                               Regina Barros Leal

Lamento de uma alma ferida
Dor que se espalha, rastreando luz
Inquieto sentimento de um coração aflito
No tormento de quem foi esquecida
Mas, a certeza da gratidão
Um dia de luz
Quem sabe chegará para aliviar seu coração magoado
Resta o sabor da doce lembrança das noites compartilhadas
Invadidas por zelo e ternura
Encantam...inebriam e enternecem 
Faz esquecer o momento em que sangrou sua alma
E assim acreditou no amanhecer
Na esperança do devir, eu creio
Outros momentos se construirão no tempo
O tempo! Ah! A sabedoria do tempo!
 Mesmo que o lamento exista


Incógnita

Incógnita

                                                          Regina Barros Leal
                           

          Do alto do vale, sentado na relva, Marcos olhava o que se apresentava aos seus olhos sedentos de natureza. Extasiado, sorvia a paisagem embebendo-se da luminosidade da noite. Encantava-se com a plenitude que aquele momento lhe possibilitava. Ali ficaram horas até perceber que já era tarde.

          Enquanto descia, mergulhou em seus pensamentos! Quase que ouvindo a si mesmo se escutou, como que rasgando sua alma aflita. - Tenha paciência que você alcançará sua serenidade. Seja sábio e aprenderá a reconhecer seus alcances e limites. Era uma voz que parecia ser sua... mas tão distante! .... Continuou descendo e, aos montes, as idéias se lhe achegavam, agora numa velocidade que não lhe permitia discernir.... Sentiu ansiedade, sua respiração era ofegante, contrastando com o momento anterior. Percebeu as mãos trêmulas, as pernas cambaleantes e uma opressão forte no peito. Sentia que seu corpo se entregara ao desfalecimento e foi, lentamente, encostando-se a terra.... Sentiu-a fria... A areia molhada pelo orvalho da noite.... Percebeu-se como se estivesse despregando do corpo. Olhava como que distanciado de si mesmo e se viu. Parecia que sonhava e sentiu-se leve, flutuando e desfrutando de uma imensa paz interior. Olhou e, viu jatos de luz que explodiam como que festejando algo! Uma forte luz azul tragando o céu que se abrindo em fendas amarelas e verdes, coloria o imenso espaço. Flutuava e percebia que subia, e, cada vez mais se distanciava da imagem de si mesmo. De repente, sentiu um calor em suas mãos e um ar quente entrando por suas narinas. Mexeu-se e ouviu uma voz muito distante povoando sua mente.... Ouvia e fez um esforço para torná-la mais audível. Ouvia alguém que lhe chamava carinhosamente. Sentiu seu corpo relaxando e a terra se aproximando. O calor de mãos que afagavam seus cabelos foi uma sensação forte.  Invadiu-lhe uma onda de calor. E olhando firme para o horizonte, viu rompendo a noite outras cores, vibrantes e sons.... Melodias lhe chegavam... Relaxou... Assim, de súbito, abriu os olhos. Ao seu lado, sua mãe carinhosamente afagava seus cabelos e repetia. –Filho por onde andou? Desmaiou?... Ainda bem que vim chamá-lo para entrar. 

A chegada

A chegada


Ë uma viagem. Cheia de expectativas. Vão ao sítio. Marcia, o marido e seu filhos e os queridos netinhos.! Assim a camioneta, os outros carros, saem estrada a fora. E os garotos pedem sorvete, água, biscoito de chocolate... vários petiscos que eles adoram comer. Além de parar na estrada para o prato inesquecível. Tapioca de coco com café e leite condensado. Assim vamos.... Passam os lugarejos de sempre até chegar à nova estrada que foi construída, muito bem tratada, claro, principalmente face ao turismo nascente. Curvas, ora paisagem ressequida, ora verdes paisagens, depende da época do passeio:  Semana Santa, Janeiro, Julho, e outros meses durante o ano. Cada estação com sua cor e cada uma delas preenchida do prazer de estarmos juntos.
         Finalmente o sítio. Tira-se o farto material dos carros: roupas, comidas, brinquedos, jogos, variados materiais de pesca e coisas de praia. Ë um rebuliço!! Os meninos saem logo com a bola nos pés para jogar com a garotada das proximidades. De repente o campo se enche de risos e gritos de alegria, a bola rolando. São crianças dos mais variados tamanhos, não só pela idade, mas também pela estrutura física.  Os adultos entram e começam a organizar o lugar. As duas secretárias vão para cozinha e ajeitam a comida espalhada pela mesa grande. A avó, dispõe as coisas dos meninos. Os homens vão para o terraço para conversar e contar lorotas. É a chegada ao sítio.
Logo mais, as panelas estão no fogo. O Seu Jorge, já paramentado de sitiante, com chapéu, bermuda e botas, vai apanhar os limões, as laranjas, os sapotis, as mangas, dependendo da época do ano. Então, em pouco tempo, a bancada da cozinha fica cheia de frutas colocadas jeitosamente em grandes cestos. É uma fartura!
 A avó vai arrumando o quarto, sacudindo a roupa de cama e mudando lençóis e, toalhas, juntamente com as ajudantes.  O som é aberto e a voz solta e bonita de Fagner enche o ambiente de musicalidade ... Borbulhas de amor. É o frenesi da chegada.
         Lá no quintal escuta-se a voz apressada do caseiro perguntando se desejam água de coco? E assim a chegada torna-se colorida e agradável. Algumas horas depois, o assado de panela, a farofa com carne do sol e o feijão verde exalam um cheiro de comida gostosa, feita com o esmero pelas meninas da casa. Muito bom!
          Hora do almoço, na grande mesa verde, os pratos, copos, talheres e terrinas de comida saborosa, enchem de prazer a degustação familiar.

              Inesquecível.

Traída emoção

Traída emoção

                                                                         Regina Barros Leal
        
          Deitada Márcia pensava...
Essa angústia que me sufoca o peito e que me deixa perturbada diante de minha insensatez.  Pudera eu, nesse tempo de vida saber distinguir o cenário propício as minhas ponderações. Mas, é sobre essa tola divagação que me perco. Na circunstância percebo os olhares trocados e a espera de meu imaturo escorrego.  Ainda, a desventura de quem não sabe dissimular. Que sensação indefinível de perda, já que o intento que não se revestia de tamanha importância. Reconheço, faltou o equilíbrio necessário e a sabedoria da espera, perceber quando é possível o argumento, ter a atitude perspicaz dos sensatos.
    
       Certamente é uma dessas horas em que a realidade me sufoca e me transtorna pela convicção da traída emoção. Será que um dia transcenderei a minha imaturidade?  Não sei. Só sinto aquela sensação desagradável de não ter evitado os desacertos de quem não sabe calar no momento adequado e se deixa trair por uma emoção incontida.




Conforto

Conforto

                                                                            Regina Barros Leal

        
                  Dizia para si mesma. Seu conforto estava na crença do que fazia sentido em sua vida. Sim, fazia sentido mesmo o que parecia não ter. Buscar o sentido das situações, das coisas que acontecem é buscar o seu significado. Seriam a mesma coisa? Seria a essência?  Aí então percebia a incomensurável capacidade do ser humano em descobrir elos que parecem perdidos. Viver é jogar-se na plenitude do tempo sem esquecer a natureza do relativo e do finito. Como então sentir o infinito na compreensão do ser finito?  Como compreender o devir, o sendo, quando reconhecemos a consciência do tempo humano? O que fazer com o tempo se ele se reveste de uma dimensão não alcançável pela finita natureza humana?  Incógnita?

Conforta-me saber que não estou só na imperscrutável solidão desses pensamentos. A busca do sentido tem estado presente na existência do homem. O estar sendo. O devir.  Desconstruir para reconstruir significados temporais. Quem não busca? Por mais difícil que seja, o homem ao pensar sobre a sua existência, expressa um movimento, uma andança que pode ser uma trajetória de sonhos. Ou pesadelos?

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

O tempo do envelhecer

O tempo do envelhecer
                       
                               Regina Barros leal

Os olhos embaçados pela tristeza
O andar lento e temeroso 
Um rosto distante com fortes marcas do passado
O amor companheiro
O humor esgarçado
Pequenas fissuras nascidas da convivência
No cotidiano, o desalento do amor esmaecido.
O tempo se esvai e carrega tanto a dor, quanto a alegria
Os enormes olhos pretos e sedutores se foram
Transcendendo o hoje, ainda busco a magia da recordação.
Encontro o amado, o amante e os beijos apaixonados.
 A beleza da cumplicidade em cada gesto
O companheiro tão doce em mil situações
Rude no desatino da desesperança
Temperamental e amante ardente
O tempo passou, eu sei.

Ah! Mas os seus cabelos brancos me enternecem

Agosto

                        Regina Barros Leal

        Julho está quase findando, e ai vem Agosto, conhecido como o mês do desgosto.  Deus queira que não se confirme o dito popular. Espero que Agosto venha trazendo emoções exultantes. Aguardo mais ternura, coragem de enfrentar os desassossegos cotidianos, capacidade de brilhar no céu vestido de estrelas, deliciar-me com banhos no mar encrespado de ondas, e atravessar o tempo sem tropeços maiores.
        Agosto poderá trazer risos, gargalhadas sonoras, viagens incomuns, desejos, e muita vida! Encher de rosas o caminho que percorro, quem sabe? Perfumando e embelezando meu itinerário errante. Nem sempre, óbvio. Mas o que é o óbvio? Nem sei. Não traz dúvidas, embora possa ser cheio de dúvidas para outros. Paradoxo. Percepções e viventes diferentes.
         Assim montada no meu cavalo alazão, vou criando sonhos impensáveis, galopando e cortando o céu, ora azul vibrante, ora vermelho ardente. Setembro vem por ai e com ele a esperança de melhores dias, mais abraços, mais gente preenchendo a vida e muito amor nas noites de lua cheia. A vida é uma poesia!

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Estranhamento

 Estranhamento
                            Regina Barros Leal
Márcia pensava sobre as ondas fugazes do tempo que passam e nem conseguimos alcança-las. São movimentos velozes que nos deixam perplexos! 50, 60 anos chegam tão rápidos!
Ouvia o vento uivando na janela semiaberta do quarto! Percebia as folhagens irrequietas enroscando-se nos jarros da varanda bem cuidada.  Sentada e olhando a singular circunstância ela presenciava o momento fascinante.
Os ventos de verão na irreverência da natureza, balançavam a estante de madeira, os jarros de flores, os enfeites da mesinha de vidro. Como se todos reverenciassem sua majestosa e fascinante presença. Legítima beleza! Os objetos moviam-se com as rajadas de seus suspiros. Era madrugada e a janela da sala estava aberta deixando que invadissem o recanto com seu perfume natural e a selvagem forma de adentrar o ambiente.
Solitária, com os braços enroscados em si mesma, sentia o corpo estremecer de frio. Não agasalhara-se naquela noite. Desatenta ao tempo, pousara aventureira na sala, como as borboletas que em voos errantes ferem suas belas asas, as quais machucadas, perdem o brilho colorido em sua forma original. Pobres seres distraídos!
Lia avidamente o romance intrigante e, de repente, ouviu o som ruidoso vindo de seu quarto. Aflita levanta-se e, mais do que rapidamente subiu os degraus de madeira, adentrando impulsivamente no quarto azul de cortinas coloridas, leves e esvoaçantes!
Susto! Notou o belo afresco de Siqueira, que tanto gostava, esparramado no chão, juntamente com o vazo de cristal com as belas orquídeas que recebera de presente. O vento os derrubara violentamente, sem mesuras ou qualquer outro cuidado. O vento que tanto amava!
Sentada no chão chorou, não pelos artefatos caídos e espedaçados, mas por seus sentidos afetivos. Como a tempestade veem sem aviso, suas lagrimas banharam seu rosto aflito. Meu Deus! O quadro que concebia a essência do pintor, do amigo que já se fora. O jarro de cristal, lembrança terna de sua mãe que partira sem dizer adeus. Convulsivamente deixara-se tomar pelo pranto e soluçava. Nem sabia se era pela forte emoção da saudade, do significante da circunstância ou porque naquele dia não se percebia plena.
Marcia, perplexa alcançou uma lembrança.  Seu avô contava sobre uma experiência ao precipitar-se no açude perto de sua casa situada numa pequena cidade do interior. Viu-se enrolado em galhos verdes, vegetação traiçoeira no cenário do medo. Em pânico e sufocando não conseguia subir à margem. Seu irmão o salvara do afogamento iminente.
Recordando do fato adentrou no silencio. Ah! Aquele silencio do finito, do não descrito, da perda, do inevitável. Durou segundos! Levantou-se e olhando-se no espelho percebeu sua agonia e refez-se.
E ai? Foi um estranha emoção.


Quem sou eu

Minha foto
Fortaleza, Ce, Brazil
Sou uma jovem senhora que gosta de olhar o mundo de um jeito diferente, buscando encontrar o indecifrável, o indescritível, o inusitado, bem como as coisas simples e belas da vida.