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segunda-feira, 19 de agosto de 2019


LEMBRANÇAS

Regina Barros Leal

Márcia procurava a caixa onde sua amiga, com muito zelo, mantinha as antigas cartas e suas pequenas lembranças. Remexia as gavetas da pesada cômoda que estava na família há anos. Encontrara papéis amarelecidos e algumas peças de roupa íntima já gastas pelo tempo. Fatigada, quedou-se por um instante! Placidamente divagou o olhar pelo quarto. Deu-se conta do nostálgico local.  Era um ambiente incomum. As paredes eram revestidas de papel parede listrado e entremeado de pequenas rosas. O colorido já não tinha a mesma tonalidade, todavia expressava uma singular aparência. Os lustres, pintados à mão, desciam majestosos pendurados em correntes douradas. Os móveis, em estilo colonial, de cor escura, davam um toque de austeridade ao lugar. Era o antigo quarto da bisavó, que teria sido ocupado pela avó e atualmente, o recanto de sua amiga, com seus 72 anos de idade, acometida por uma doença terminal. O ambiente revelava as marcas do tempo traspassado de subjetividade feminina.

Envolvida por esse ambiente que abrigava diversas histórias familiares, sentou-se à penteadeira e viu uma escova oval, banhada de prata. Relembrou sua adolescência quando se esmerava no trato de seus cabelos longos. Sentia prazer em penteá-los, especialmente, para ir às tertúlias. Que nostalgia! As tertúlias, o som do pistom e a pista de dança! As luzes no salão de festa! Lembrava-se do rito da espera da festa, os preparativos, dos vestidos de tafetá, dos cochichos, dos jogos de sedução da época.  Tudo era tão fascinante!

Entretanto, rompendo a cortina do tempo, voltou a rebuscar os armários. Finalmente! Eis a caixa que ela pedira. Tamanho médio, vermelha, com rosas amarelas e enfeitada com um laço de fita de cor branca.  Dentro, cartas, cartões, fotografias, bilhetes, miúdos adereços. Sentiu uma inefável sensação. Pudera! Mergulhando no tempo de outrem.... Quem sabe? Estórias intercaladas de risos e lágrimas. Não sabia bem por que, mas teve a sensação de estranhamento. Pareceu-lhe usurpar um templo, um espaço privado, intocável, misterioso e repleto de segredos. Sentiu-se invasora. Retrocedeu. Imaginou a bisavó da amiga, seus amores, seus medos, sua polidez. Lembrou-se de sua avó, uma velha senhora, de olhos azuis, pequenina, cabelos grisalhos, de feições severas e gestos vagarosos. Pensou em sua mãe, curiosa, criativa, miúda, romântica. Recolhia-se, às tardes, em seu refúgio particular e lá permanecia horas a fio. Não atendia a ninguém. Mergulhava em seus segredos e ali ficava horas a fio. Quantas lembranças aquele quarto a conduzia ao passado longínquo.

Olhou para a caixa já guardada há bastante tempo, e segurou-a temerosa. Teria que ser rápida. Sua amiga pedira-lhe que levasse seu bauzinho, assim apelidara a caixa, abarrotada de seus mistérios de mulher.
Sentir a nostalgia que o ambiente transmitia, depois de tanto tempo, fê-la tentar compreender as razões pelas quais sua amiga prezava aquele recanto.... Quem sabe, nem que fosse por um tempo efêmero, nele sentia-se mais próxima de sua perdida juventude.

Ao chegar, olhou e viu a mulher. Enterneceu-se por sua incansável serenidade e fundiu-se num olhar complacente. Sucumbida pela imensa ternura, num gesto de intimidade afagou- lhe a cabeça e beijou sua testa. Entregou a caixa e foi saindo do quarto sem despedidas, deixando-a com suas recordações. Era o momento dela, somente dela. Pensara com compreensão.
 Quando de súbito a amiga a chama. Volta-se surpreendida pelo tom enfático de sua voz. Neste instante ao vê-la, percebeu que algo estava para acontecer. Espera. Ansiedade. Surpresa. Sua amiga retira da caixa uma carta e a entrega. Recebe em silêncio. Com um gesto de ternura ela segura suas mãos e com um ar de cumplicidade ela volta a deitar-se em abandono.
Naquele espaço impregnado de história, de intimidade abriu a carta. Perplexa leu uma confissão. A narrativa de uma mulher que ao longo dos anos sentira o medo. Vivera com o terror, o pânico, amedrontada por um homem que a estuprara e que a ameaçara sua família, caso ela contasse.
Foram dias de sofrimento e dor. Omitira o caso. 40 anos de silêncio e vergonha. Nunca, ninguém soubera. Só hoje resolveu mostrar o conteúdo da carta. Não queria ir embora sem contar o que acontecera, nem que fosse para continuar guardando o terrível segredo, mas dividiria com alguém e aliviaria o seu fardo de anos e poderia ir em paz. Este homem era o melhor amigo do pai de sua amiga. Ao terminar de ter a carta ela suplica a Márcia que ela mantivesse o segredo. Lamentou ter dividido, mas precisava desabafar com alguém a dor que a sufocara por tanto tempo. Sentiu-se aliviada, muito embora o silencio constrangedor a consumira lentamente.
Ela partira 5 meses depois!
          Márcia chorou copiosamente. Manteve o sigilo.
          Que desperdício! Não se fizera justiça. A impunidade reinava nas lembranças de sua amiga.


Devaneio
                                       Regina Barros Leal

Fiquei a pensar sobre a vida e a correria de sempre ir adiante
Tentei freá-la várias vezes, mas não consegui, nem por um instante
Escorregava no assoalho de meus sonhos
Resvalei no caminho e nas pedras brancas da muralha de  ilusões
Persisti, insisti, corri...
Dançando com as estrelas e sorrindo com os girassóis
Continuei de ombros erguidos!
Olhos no tempo, desejando segurá-lo com a força de meus ideais
Resisti aos momentos de perdas 
Sorri, diante da esperança



Dor                            
                                   Regina Barros Leal

Esta dor que não se aparta! É a amarga solidão
Chega sempre ao anoitecer, repleta de emoção
Soluços na cama vazia, de sua plena brandura
Ausência do peito amante, carência de ternura

Mergulhada no mar de saudades e grande aflição
Procuro ouvir seu riso, nos ventos fortes de verão
Banho-me na cachoeira, das lágrimas já nascidas
Na esperança de gravar, as lembranças surgidas

Busco na nostálgica saudade, os abraços cativantes
Sussurrando, teço palavras, com fios brilhantes
Sinto no corpo um vácuo de afeição e amor
Nem sei mais escrever poemas, na profusa dor.






Incógnita
                                                                                                       Regina Barros Leal
E então se perguntou. Quem era ela? Essa mulher pequena, risonha e colérica que amansou seu coração? Quem realmente viveu nessa matéria bem cuidada, correu loucamente desvairada sob os pisos das calçadas de cimento, malcuidados, ou terra batida no quintal da casa? Quem percorreu nas galerias dos sonhos, brincando de menina valente, sob os céus de mil estrelas, algumas cadentes? Nascida sem espera, chorou a vida e brincou nas águas das chuvas que alagavam o jardim, sentindo seus pés enterrados nas folhas secas molhadas? Nesse giro da vida que virou redemoinho, o tempo derramava-se pelos córregos dos rios passantes e os olhos lacrimavam de medo! Seria o homem do saco ou a bruxa malvada?  Essa menina cresceu pouco, mas imaginou muito, voejando como as fadas que cruzam os devaneios de criança. Fez-se mulher pequena, crescente nas ideias, emudecida na dor e barulhenta no riso solto. Essa parece a que conheço, mas nem sabe quem ela é!  Mas onde está a mulher silenciosa das noites mal dormidas, nos cansados dias de tormento, de pensamentos ensandecidos? Quem é essa mulher apaixonada, amante calorosa, enlaçando o parceiro nas brumas da noite, colhendo amores e calores nos momentos encantados? Esta também nem sabe quem é. Os cabelos brancos surgem na dor e adornam o rosto da mulher, como chamas ardentes. Quem realmente ela é?


Turbilhão

Eu me procurava e não encontrava a mulher aparente. Onde estarei se não vejo os rastros de minhas pegadas? Mergulhada em águas embaçadas elevo meus braços em busca de salvação! E quem eu sou? Não encontro nomes e nem codinomes para mil facetas que vivi. E hoje, só ficaram as questões sem respostas, vestígios de passagens disformes, densas e perturbadoras.  Um movimento interior me leva a pensamentos que parecem fios enroscados numa miragem louca! Não me conheço e paradoxalmente me conheço em tantas respostas e nas mais devastadoras perguntas. De repente tenho a sensação de penetrar um mundo de claridades e fumaças que embaçam minha mente. Onde estou e para onde vou? E os outros me alcançarão?  Alço voos pela dimensão do desconhecido e tenho medo de esbarrar nas minhas temerosas memórias, são mais das vezes, ignotas, e nem sei se são criadas, se reais ou ilusões passageiras. Nesse torvelinho de ideias, enlaçada por braços quentes que me acaloram o corpo, acordo sobressaltada.
Ah! Sabe desistir de vasculhar minhas memórias


Superação
                              Regina Barros Leal

Estávamos juntas a conversar feito sussurros, e alcançávamos as ondas do mar através da música relaxante. As cachoeiras, o pasto verde e os lagos de águas cristalinas, paisagens que nos traziam paz, bênçãos divinas e acolhimento. Nesse momento não nos distinguíamos: duas pessoas ampliando as mentes no passeio divino da imaginação. Acalmadas sorriamos, as gargalhadas eram como sons insonoros, paradoxal instante!
Paramos para nos olhar e encontramos o passado e o presente enlaçados na nossa grande e sincera amizade. Foram anos e são dias em que nós dividimos e alçamos voos rasantes, como pássaros na água pegando peixe. Muita risada, e ali, naquela ocasião brindávamos à vida
Muita gratidão pelos momentos no agora, orávamos e agradecíamos a segunda chance que a vida nos deu.
Enfrentamos a dor e encontramos a harmonia, tal qual a esperança que ilumina os dias.
Durante horas sentimos o tempo na contraordem do dia. Passaram rápidos os segundos, os minutos e as horas, como se o tempo não tivesse tempo de passar. Arrastadas pelas lembranças, olhávamos álbuns, batíamos palmas e celebrávamos os sonhos e as fantasias
Na ruelas e veredas da conversa transcendente, nossas asas batiam forte e o passeio alongado nos levavam a lugares distantes, infindos, éramos como pássaros, voejando no cenário encantado!  Momentos atemporais! Superamos as dificuldades, cicatrizamos feridas, renascemos na esperança!
Quando nos demos conta já se fazia noite. O sol, já se escondera em sua nova travessia.  O céu nublado apontava chuva, o choro divino! Então nos despedimos com lágrimas de alegria, agradecendo a |Deus a partilha e o encontro fraterno.
Esse realmente, foi um dia de afetos! Meu coração abriu-se em oração.


Quem sou eu

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Fortaleza, Ce, Brazil
Sou uma jovem senhora que gosta de olhar o mundo de um jeito diferente, buscando encontrar o indecifrável, o indescritível, o inusitado, bem como as coisas simples e belas da vida.