Há pessoas que nos falam e nem as escutamos, há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam mas há pessoas que simplesmente aparecem em nossas vidas e nos marcam para sempre. Cecília Meireles
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quarta-feira, 16 de novembro de 2016
sábado, 12 de novembro de 2016
O casarão revisitado
O Casarão revisitado
Regina Barros Leal
Silêncio no casarão. Tínhamos ido repartir os objetos:
porcelanas, lustres pintados. Ah! Aquela mesinha de vidro. Telefones antigos,
retratos, espelhos, cadeiras, dentre outros, que fizeram parte de nossa
história. Estávamos desajeitados. A ampla sala, palco de muitos encontros,
desnudada, refletia o abandono. O casarão tinha sido comprado e certamente
seria demolido.
Sentamos e
olhamo-nos como que perguntando por onde começar. Um tempo silencioso... Marejado de
reminiscências. Depois, como que para quebrar o gelo, iniciamos a partilha.
Contingência. Tivemos que nos desfazer do casarão. Era uma satisfação miúda,
misturada à melancolia, mas sutilmente afugentada pela satisfação de outras
necessidades resolvidas.
Enquanto
meus irmãos conversavam, subi ao meu antigo quarto, colcha branca, protetora e
repousante, refúgio de júbilo e aflições não ditas. As janelas descortinadas
deixavam entrar os últimos raios de sol daquele fim de tarde. Recordei
passagens singulares Comecei a rebuscar minhas lembranças infantis: estórias
povoadas de fadas, bruxas, princesas, piratas, fantasmas. Evocações permeadas
de uma alegria medrosa. Coisas de criança. Buliçosamente, entrevi meu passado
povoado de fantasias.
Insisti.
Reencontrei minha infância, saudável, naquele casarão, com minha família, onde
vivi minhas experiências de criança privilegiada. Não faltavam chocolates,
doces, brinquedos, nem tampouco amor. Que lembranças! Jogando “mãos ao alto”
com meus irmãos, brincando de adulto, organizando peças de teatro. Eu, então,
alegrava-me muito ao cantar. Naquela época, meus pais armavam um palco numa
garagem bastante espaçosa, com cortina de veludo vermelho, tablado, tudo a que
se tinha direito, e convidavam a família. Meus tios elogiavam a atuação dos
seus pequenos artistas, alguns meio atrapalhados, pequenos iniciantes amadores.
Era um momento mágico onde a fantasia corria pelos campos da imaginação. Quase
indescritível.
Como saboreava aquelas tardes compridas que se
encontravam com a noite que chegava de mansinho! O entardecer. Recordo-as, nitidamente. Foram de uma beleza, ímpar porque permeados
pela magia dos sonhos e dos folguedos infantis. Rir, saltar, correr, pular de
corda, andar de bicicleta... Tudo isso naquele espaço enorme onde meu pai
construíra o casarão. Ah! Meu pai. Homem inteligente. Personalidade marcante.
Sujeito avançado, criativo, lépido e determinado. Seu legado de força
influenciaria nossas vidas para sempre. Ele se eternizou em cada um de nós.
As recordações brotam. Meus 15
anos! Adolescência. Os fortuitos namoros, as mãos trêmulas, os medos, as
primeiras descobertas, o primeiro beijo. As serenatas! As canções apaixonadas e os corações
saltitando sob as camisolas de seda. Janelas descerradas e olhares de paixão. .
Ali escutávamos os trovadores juvenis Minha mãe, doce criatura, compartilhava
de nossas emoções. Sua presença confundia-se com a beleza da noite. Afetuosa
mulher
18 anos! O caminho
das rosas que perfumam e ferem as almas com seus voos vazantes. Descobertas
adultas e corpo de mulher. Pensamentos e sonhos impudentes! Tempo dos ventos de verão, das tormentas, do
paraíso florido pelos sonhos fartos e generosos. Fred, Marcelo povoavam meus
devaneios. Mas a efemeridade os jogou pelas fendas do tempo. Lembrou Victor Hugo: “Sede como os pássaros
que, ao pousarem um instante sobre ramos muito leves, sentem-nos ceder, mas
cantam! Eles sabem que possuem asas”. Iria voar nas asas das quimeras e
adentrar os momentos de fragilidade e transcender o cotidiano na preciosa
imaginação e na singular fantasia.
Na penumbra do
quarto, repassei minha vida e chorei!
Não só pela despedida do casarão, mas pelo adeus ao tempo, aos tropeços
da meninada, as esgarçadas relações que se diluíram na distancia. Chorei pelos
amores perdidos, as intrigas não resolvidas, os perdões esquecidos. Entretanto
sorri, gargalhei com a primavera dos amores correspondidos, sorri com a chuva
de prata dos dias de lua cheia em que namorávamos escondidos, das sessões da
tarde, das missas assistidas. Éramos felizes.
Ouvi alguém me chamando:
- Lucia, estamos esperando, desça. Era meu irmão mais velho.
Senti sua voz trêmula, inconfundível. Ele sempre foi muito emotivo.
- Já estou indo! Respondi um pouco desorientada pelo brusco
retorno ao presente.
Fui descendo a escada de mármore. Era tão bem cuidada por
minha mãe! Aquele mármore branco, reluzente, já desfeito pelo desgaste do
desuso.
Olhei para todos e percebi o quão estavam perturbados.
Quem sabe, não fizeram o mesmo percurso? Meus irmãos, crianças de outrora,
companheiros de brincadeiras. Hoje, parceiros da saudade.
Saímos devagar. Ronceiros. Despedidas murmuradas. Rostos
entristecidos. Gestos vagarosos.
Chegando a casa fui guardar os objetos, testemunhos
silenciosos de minha história. Não foi fácil vender o casarão, herança de
nossos pais, local vivo de muitas recordações. Nós, inquilinos do passado,
pagamos um melancólico tributo pela nossa despedida.
Nessa noite, quase
não dormi.
sexta-feira, 30 de setembro de 2016
Mistério da fé
Regina
Barros Leal
Imenso como as ondas revoltas
O sentimento envolve minha alma
Vejo luzes nas faíscas do tempo
Tento alcança-las, estendendo as mãos
Um gesto de complacência!
E a fé resplandece em meu intimo
Consigo mover meus braços que se alongam
E as mãos se fecham
Meu corpo em oração, queda-se diante do sublime
Da infinita sabedoria
Do absurdo
Do inexplicável
Sentimento de amor a Deus
sexta-feira, 16 de setembro de 2016
APRESENTAÇÃO DE "CHICO COBRA E SUAS ANDANÇAS:" LIVRO DE SÁVIA FERRAZ
BOA NOITE A TODOS!
EM ESPECIAL À FAMILIA PEREZ E BESSA E , PARTICULARMENTE, AO SR.
FRANCISCO BESSA
BOA NOITE! A MINHA
AMIGA E ESCRITORA SÁVIA
FERRAZ, A QUEM ADMIRO E TENHO
CARINHO FRATERNAL.
UMA MULHER DE RARA
SENSIBILIDADE!
A ELA MEUS SINCEROS PARABÉNS!
O LIVRO ESTÁ ESCRITO COM “BORBULHAS DE AMOR” ,
PARAFRASEANDO FAGNER”.
RESSALTO, AINDA, MINHA ALEGRIA EM PARTICIPAR DESSA EXUBERANTE
FESTA, REGADA DE INCOMPARÁVEL AFETO
FAMILIAR.
INICIO AFIRMANDO
“
CHICO COBRA E SUAS ANDANÇAS: MEMÓRIAS DE FRANCISCO
BESSA
“
RATIFICA A ESPECIAL HABILIDADE ESTÉTICA E POÉTICA DA
ESCRITORA SÁVIA FERRAZ, CONFIRMANDO A FELIZ OPÇÃO DA FAMÍLIA PEREZ E BESSA
AO ESCOLHER SÁVIA PARA ESCREVER A BIOGRAFIA DO EXITOSO PROPRIETÁRIO DA EMPRESA
EVEÍZA.
A ESCRITORA CONSEGUE
NARRAR OS EVENTOS, AS ESTÓRIAS DIVERTIDAS,
AS DIVERSAS EMOÇÕES, AS AVENTURAS E DESVENTURAS, AS ALEGRIAS E AS PERDAS, OS
ACERTOS E DESACERTOS, NUMA NARRATIVA EMBEBIDA DE SIGNIFICADOS AFETIVOS.
A DOR SE DESVANECE E A ESPERANÇA PREENCHE OS SONHOS
REALIZADOS DO BIOGRAFADO.
A AUTORA APREENDEU
OS SENTIDOS PRESENTES NA HISTÓRIA DO BESSA (COMO ASSIM O TRATA EM SUA OBRA),
ABSORVEU AO LONGO DE SUA PESQUISA INCANSÁVEL, A SENSIBILIDADE DE UM HOMEM QUE
NASCEU EM CONDIÇÕES DESFAVORÁVEIS: NORDESTINO, POBRE, MIGRANTE, ASSINALANDO
UMA EXISTÊNCIA QUE SINTETIZA MÚLTIPLAS DETERMINAÇÕES.
NO
ENTANTO, SÁVIA DESTACA:
A CORAGEM, A
ESPERANÇA, A PERSEVERANÇA, A GENEROSIDADE, O ALTRUÍSMO DE BESSA, RELATANDO QUE, DESDE DE CRIANÇA, ELE ENFRENTOU CONDIÇÕES
ADVERSAS, REALIZANDO UM PERCURSO DE CONQUISTAS, COM A TENACIDADE, A
INTELIGÊNCIA E A PERSPICÁCIA DE POUCOS.
A
ESCRITORA REALÇA O ITINERÁRIO DE BESSA, QUE, DESVENCILHANDO-SE DAS AMARRAS IMPOSTAS POR SUA CONDIÇÃO SOCIAL, FERIU O CORPO,
VIVENCIOU AFLIÇÕES, ABASTECEU- SE DE IDEIAS CRIATIVAS E AGREGOU EXPERIÊNCIAS
INUSITADAS.
A
BIOGRAFIA DE BESSA, HOJE COM 76 ANOS, É
EXTENSA E CHEIA DE ESTÓRIAS SINGULARES, PASSAGENS JOCOSAS, AVENTURAS E
DESAFIOS, SITUAÇÕES DESCRITAS, COM ESMERO,
PELA AUTORA.
SEGUNDO SÁVIA, BESSA EDIFICOU UMA VIDA
EM QUE A FAMÍLIA
IMPULSIONOU OS SEUS SONHOS
ARROJADOS. NESSA JORNADA INCANSÁVEL, ATRAVESSOU A AMAZÔNIA, OS SERINGAIS, A DENSA
FLORESTA, SUPEROU MEDOS, HUMILHAÇÕES, GARGALHOU E AMOU, VIVENCIANDO PECULIARES CIRCUNSTÂNCIAS E, AO APROVEITAR AS OPORTUNIDADES,
CONSEGUIU ALÇAR GRANDES VOOS,
TRANSCENDENDO O COTIDIANO ATRIBULADO.
DIZ
SÁVIA:
“
BESSA TEM SUA HISTÓRIA MARCADA PELO LEITE ESCORRENDO DAS SERINGUEIRAS, PELO
VALOR DO TRABALHO EXAUSTIVO, NUM CLIMA ADVERSO, ONDE IMPERAVA A LEI DO MAIS
FORTE”.
AO
OPINAR SOBRE SUA VIDA, BESSA RATIFICA O QUE SÁVIA CONSTRÓI AO LONGO DE SUA NARRATIVA:
O COMPROMISSO FAMILIAR.
“ SEMPRE PAUTEI A MINHA
EXISTÊNCIA CENTRADA NA FAMÍLIA”... APRENDI A VIVER E A VALORIZAR A
SIMPLICIDADE. FUI CRESCENDO AOS POUCOS E DEVO MUITO, TUDO O QUE CONQUISTEI, À
MINHA ESPOSA E COMPANHEIRA QUE SONHOU E ACREDITOU EM MIM.
SEU DEPOIMENTO ASSINALA O AMOR, A
ADMIRAÇÃO, POR SUA ESPOSA, BELKISS, COMO BEM EXPRESSA PABLO NERUDA:
DESDE ENTÃO, SOU
PORQUE TU ÉS
E DESDE ENTÃO ÉS
SOU E SOMOS...
E POR AMOR
SEREI.... SERÁS.... SEREMOS
E DESDE ENTÃO ÉS
SOU E SOMOS...
E POR AMOR
SEREI.... SERÁS.... SEREMOS
O MARIDO E
COMPANHEIRO DE TODAS AS HORAS, O PAI, O IRMÃO SINCERO, O AVÔ AMADO, O AMIGO
FIEL, O PATRÃO AFÁVEL E GENEROSO SÃO VISÍVEIS NOS DEPOIMENTOS.
GRATIDÃO E
RECONHECIMENTO PERMEIAM AS FALAS DOS ENTREVISTADOS POR SÁVIA.
RECORTANDO
ESSE CENÁRIO DE AFETOS, TOMO A LIBERDADE DE DESTACAR OS RELATOS DOS NETOS, TERNAS DECLARAÇÕES DE AMOR AO AVÔ:
VITÓRIA
FALA “ PARA MIM, O VOVÔ É A REPRESENTAÇÃO DA BONDADE E HUMILDADE E É UMA
PESSOA IMPORTANTE PARA TODOS NÓS”
ARTHUR
REAFIRMA “ VÔ AMO VOCÊ E QUERO QUE O SENHOR VIVA MUITOS E MUITOS ANOS JUNTO
A MIM.
LARISSA EXPRESSA “ PARA
MIM, MEU AVÔ BESSA É UM DOS MAIS IMPORTANTES DESSE MUNDO E SUA VIDA É UM
EXEMPLO.
PAULO RECONHECE “ MEU AVÔ
BESSA É UM GRANDE HOMEM! É EXEMPLO DE DIGNIDADE PARA TODOS”.
GUILHERME DIZ
“MEU AVÔ É MUITO LEGAL E SEMPRE DEU ATENÇÃO E CARINHO. NÃO QUERO QUE MUDE.
GOSTO DO JEITO QUE ELE ME TRATA E TRATA AS PESSOAS.... “
BELKISS, A ESPOSA, OS FILHOS MOÍZA, EVELINE, ADELINO, SERGIO, SHIRLEY; NETOS E IRMÃOS
CONFIRMAM O QUE ESCREVE CORA
CORALINA:
“ A VERDADEIRA CORAGEM É IR ATRÁS DE SEUS
SONHOS MESMO QUANDO TODOS DIZEM QUE ELE É IMPOSSÍVEL. ”
A BIOGRAFIA DE BESSA, NOS FAZ ACREDITAR NA DIMENSÃO
DE POSSIBILIDADES, NA CONSTRUÇÃO DE SONHOS QUE PODEM SER ALCANÇADOS, NA BELEZA
DA UNIÃO FAMILIAR, SOBRETUDO, NO PRAZER DO COMPARTILHAMENTO, COMO O ALMOÇO EM FAMÍLIA,
CONCRETIZANDO AS RELAÇÕES DE AMOR QUE MARCAM A HISTÓRIA DOS PEREZ E BESSA
SOBRETUDO, COMO BEM ESCREVE SÁVIA:
,
“NA CONSTRUÇÃO DA EMPRESA EVEÍZA QUE PROMOVE INSERÇÃO, CRESCIMENTO E VALORIZAÇÃO DO TRABALHO
CRIATIVO DO POVO DO CEARÁ”.
A BIÓGRAFA, TRANSITA PELA VIDA DO BESSA COM LEVEZA E
ENTUSIASMO AO REGISTRAR :
“
A SUA VIDA REPRESENTA UM EXEMPLO PARA OS
QUE ESTÃO INICIANDO A CAMINHADA; UM ESTÍMULO PARA OS QUE JÁ PERCORREM O
CAMINHO; UM SINAL DE QUE O ESFORÇO, O EMPENHO, A FÉ, A PERSEVERANÇA E O
TRABALHO CONTINUADO, PODEM CONTRIBUIR DECISIVAMENTE PARA O SUCESSO...”
SÁVIA FINALIZA,
EXPRESSANDO COM INTENSIDADE, A
SINCERA ADMIRAÇÃO POR BESSA , RECONHECENDO-O COMO “ O MEU HERÓI”.
CONCLUO,
PARABENIZANDO SÁVIA, QUE NOS INSTIGA, EM SUA OBRA, “ CHICO COBRA E SUAS ANDANÇAS” A CONHECER O TRAJETO DE ESPINHOS A LÍRIOS,
PERCORRIDOS POR FRANCISCO DE ASSIS
BESSA.
OBRIGADA
PEA ATENÇÃO!!
quarta-feira, 30 de março de 2016
Combatente
Combatente
Regina Barros Leal
Rompendo o invólucro da opressão
Ergue seu corpo num só ímpeto e grita!
Liberdade! Liberdade!
Canta a esperança! Nasce a mulher!
Rompante! Forte, feminina, intrépida!
Entoa a canção dos combatentes
Ergue os braços com vigor e brada: Liberdade!
Vigorosa e atenta da história marcada de aflição
Nas ruelas escondidas, nos refúgios compartilhados, nos
diálogos entrecortados de gemidos…Dores e risos.
Grilhões rompidos e vestes rasgadas
Nua de preconceitos, dança ao som dos ventos
Liberdade...Liberdade!
E a luta continua em outros cantos e recantos
Resiliente
Contra a opressao silente.
O jugo indiferente!
sábado, 5 de março de 2016
Minha fé
Minha fé
Regina
Barros Leal
Minha alma cantante expressa a melodias da esperança
Meu som vibrante grita de entusiasmo o amor!
Meu corpo vigoroso pela fé, refugia-se na valente decisão
E a fé me acompanha, e eu caminho...
Enfrento o desamor e busco o afeto generoso
Repudio a indiferença e trago a ternura dos fortes como companheira
E meu sol brilha no céu brilhante dos que amam e confiam
Minhas vestes brancas revelam a pureza da luta e da entrega
Rejuvenescida canto louvor a Deus
Reconheço a infinita compaixão divina
Brindo a coragem dos combatentes
Quebranto-me diante do grande amor
Louvo ao Senhor
Entrego-me inteira
Rendida pela infinita fé.
sábado, 17 de outubro de 2015
O RITUAL
O RITUAL
Regina Barros Leal
O portão de ferro abrindo-se. As pessoas
chegando...O dia começara. Eram 8 horas da manhã. De cada um que entrava,
ouviam-se variados cumprimentos: Oi! Bom dia! Olá! Como vai? ... E outras,
apenas manifestando gestos de aceno com as mãos, movimentos com o corpo
inteiro, ora harmoniosos, ora desajeitados.... Elas encontravam um jeito
peculiar de expressar sua chegança.
Durante um determinado tempo observei, espreitei, e, aos
poucos, fui me envolvendo com a atmosfera intrigante, vivenciando intensamente
a experiência. Dei-me conta das expressões dos que chegavam: rostos alegres,
sisudos, descontraídos e alguns ansiosos.... Outros rostos fechados e
impenetráveis, alguns carregando um certo ar de cansaço, como quem passara uma
noite insone. Percebi, outrossim,
trejeitos de quem acordou cedo e já fizera um montão de coisas e ao chegar,
rapidamente, procurava assento, soltando o corpo pesadamente. À medida que ia
aprofundado o meu olhar curioso, vi gestos familiares, reconheci hábitos e
manifestações humanas, mesmo porque o rito do iniciar, do começar o dia,
acontece em todos os lugares, embora em tempo, em cantos e formas culturalmente
diversas.
Remeto-me ao passado. Revivi também o amanhecer no casarão....
Que lembranças! O galo cantando anunciando o amanhecer; o cheiro de leite
mugido, o barulho dos patos no tanque ao lado, as portas e as janelas sendo
abertas, deixando o sol entrar e banhar o ambiente da energia do calor matinal.
Grandes e pesadas portas abrindo-se para dar passagem ao dia que chegava. Uma
prática cotidiana inconfundível!
Meus pais, embora urbanizados pelo
tempo na cidade e pela contenda diária, não deixaram de cultivar os hábitos do
campo e conseguiram mantê-los em família. Recordo-me do café da manhã: uma mesa
sempre farta de cuscuz, bolo de milho, canjica, queijo, pamonha, leite fresco
bem-fervido e a coalhada que meu pai não dispensava de sua primeira refeição. E
o café! Ah! Um café gostoso, torrado no pilão! Ainda consigo sentir aquele especial
cheiro que invadia o casarão.
Na
cozinha espaçosa, no grande fogão, as grandes chaleiras fervendas. Os panos
limpos de coar café, segurados por pequenas varetas de madeira roliça, eram
arrumados de um jeito especial, colocados dentro de uma panela para não se
sujarem. Questão de zelo e higiene! Muitos dos que lá trabalhavam faziam o
desjejum no casarão.
No
quintal, o canto dos pássaros. A beleza das plantas orvalhadas... Era a
natureza que cumprimentava a humanidade. O grande quintal era um local
prazeroso, com frutas variadas: seriguela, caju, mamão, coco, banana prata,
goiaba e outras mais.
Além disso, tínhamos duas vacas, dois
bezerros e o mais curioso era ao amanhecer o dia, a criançada, cada um com um
copo de alumínio (gravado o nome), esperando a sua vez para tomar o leite
mugido. Obrigação. Meus irmãos e primos, tanto quanto eu, não gostávamos da
ordem paterna. Ali estávamos postados na fila do leite. Essa cena se faz
nitidamente presente em minha memória.
Consigo,
ainda, com nitidez, rever as imagens daquelas manhãs.
Compondo o quadro, as moças trabalhadeiras, pois eram umas cinco, já de
vassouras nas mãos e aventais coloridos se espalhavam pelo casarão iniciando as
suas atividades domésticas. Em cima de uma mesa redonda, com tampa de mármore e
pés de ferro e a pintura de duas negras de tranças amarradas com fitas coloridas,
colocavam-se grandes tachos de cobre cheios de goiabas brancas e vermelhas,
devidamente separadas e descascadas. Um ritual semanal, os preparativos.
Depois, no pátio ao lado, os grandes tachos
eram colocados em fogões de carvão, improvisados para a feitura do doce. Jamais
esquecerei as borbulhas do doce cozinhando e as enormes colheres de pau
manuseadas pelas meninas em gestos circulares. O aroma agradável! Olho, e
visualizo a imagem da jeitosa Justina: moça branca, bonita, uma das
responsáveis pela cozinha. Grata imagem de um tempo que se foi!
Minha mãe, com seu jeito manso, porém firme,
coordenava todos no começo do dia. No espaçoso quarto da casa, organizadas
impecavelmente em cima da cama de casal, encontravam-se as roupas de meu pai:
camisas, gravatas, meias, lenços de linho branco dentre outros acessórios. Ao
lado da cama, os sapatos, quase todos pretos, estavam sempre bem lustrados. Meu
pai era um homem franzino, pequeno, mas, elegante e vaidoso. Tudo lhe era dado.
Minha mãe, a prestimosa mulher, fazia-lhe festas e gentilezas. Era um homem
especial! Na mesa, o peito de frango, aliás, os melhores pedaços, sempre lhe
foram reservados. Tudo nos parecia natural e aceitável. Era o chefe da casa.
E a
grande mesa redonda! Revolucionária para a época, porque tinha um expositor
giratório. Não pedíamos os pratos e bandejas de comida, apenas rodávamos a
redonda tábua giratória e lá estavam os quitutes de Justina. Na hora do almoço,
a atenção respeitosa, a famosa hora da conversa, da prestação de contas, das
novidades do dia, das traquinagens da criançada, inclusive. Um ritual familiar
inesquecível.
Revejo, também, o pátio avarandado. Naquele lugar, tão
cuidadosamente construído, armávamos redes, jogávamos damas, dançávamos
quadrilha, e brincávamos de tudo que pertencia ao nosso universo lúdico. Belas
recordações!
De repente, alguém me
chama:
- A
reunião vai começar, você não vem?
- Claro
que vou. Respondi à minha atenciosa e pequenina amiga.
Levantei-me, e segurando
os meus alfarrábios, fui caminhando lentamente para a sala. Todos já estavam
acomodados: os que chegaram entreolhavam-se e acolhiam a pequena senhora, a
intrusa do dia. Mas, por ter sido bem-recebida, compartilhei. Não sei ainda por
que... mas senti-me estranha naquela manhã...
Daí, resolvi escrever.
quinta-feira, 17 de setembro de 2015
Florbela Espanca- a mulher
Florbela Espanca- a mulher
Regina
Barros Leal
Início minha reflexão sobre a escritora Florbela Espanca
que gemeu de dor, derramando-se em gotas de amargura, mas de uma beleza etérea
em seus versos sofridos, como numa das estrofes de “Silêncio!”.
No
fadário que é
meu, neste penar/Noite alta, noite escura, noite morta,/Sou o vento que geme e quer entrar,/Sou
o vento que vai bater-te à porta...
Não
vou historiar sobre a biografia de Florbela Espanca, sobretudo porque já
existem fascinantes estudos sobre a poeta que, ao despedir-se tão jovem da vida,
aos trinta e seis anos, encerrou sua magnifica obra literária.
Escolhi discorrer sobre os sentidos, a
resistência, a beleza e o significado que a poetisa deixou como legado para os
que apreciam o seu estilo e sua força telúrica. Seus poemas retratam a mulher,
o ser angustiante, a depressão que chega ao lirismo na sua expressão genuína.
Florbela
Espanca me chamou atenção há certo tempo. Seus poemas, a leitura do Livro de Mágoa”
me instigou a ler mais sobre a autora, sua biografia, sua obra. Pasma diante de
extasiante beleza, de tamanha amargura, quedei-me a fascinação de seus versos
idiossincráticos. Fui lendo...lendo e à medida em que lia apaixonava-me pela
mulher resistente aos preconceitos e normas. Vi um ser diferente que, ao
contrariar códigos, mudou o rumo de sua vida nascente. Apaixonou-se
perdidamente, vivenciou dores intensas em sua curta vida, de tal forma singular
que a concluiu entregando-se à morte.
Não
vou discorrer sobre suas escolhas, suas dores particulares, mas sobre como e
quando seus versos me tocaram a alma, os sentidos e os significados para quem
leu Florbela Espanca na maturidade da vida. Busquei ao conhecê-la, no sentido
profundo que transcende a leitura biográfica, encontrar minha essência
feminina e poética,
Expresso, pois, emoções pessoais. Li a autora procurando
compreender o finito e o infinito do ser, numa procura do indecifrável, da
definição do abismal sentimento de solidão. Foi ela, a mulher, a sua saudade
sufocante, o amor que a envolveu e a dominou, a rejeição, a desilusão, a dor
expressa de maneira inexplicavelmente bela e suas diferentes vestimentas que me
aproximaram da poetisa. A mulher que cultivou a paixão no seu extremo, o amor
em sua grandeza, a amargura na sua força devastadora, sem perder a beleza
estética de sua narrativa.
Desejava
descobrir um registro literário de emoções humanas avassaladoras, de atitudes femininas
transgressoras, da rebeldia manifesta contra os esgarçados preconceitos, as perdas
existenciais e sociais retratadas poeticamente.
‘Vacilando entre a moral e o preconceito e a
beleza própria do poema, a poesia de Florbela
teve um “frio acolhimento” durante sua vida.
Constatamos a história, “a relação mecanicista vida e
obra”, que se desenrolou em torno da poeta; tudo muito bem contado, com a base sólida da pesquisa séria de Maria Lúcia Dal Farra em Poemas de Florbela Espanca (Martins Fontes Editora).
Retratou Gerana Damulakis.
Encantada
com sua obra enveredei pela leitura de seus poemas e encontrei retornos
pessoais, encontros inusitados entre a leitora e a autora, instigada e entusiasmada
pela beleza que, ela, tão singularmente nos faz encontrar em seus versos doídos.
Amar
Eu
quero amar, amar perdidamente! / Amar só por amar: Aqui... além.../ Mais Este e
Aquele, o Outro e toda a gente.../ Amar! Amar! E não amar ninguém! / /
Recordar? Esquecer? Indiferente! / Prender ou...
Tédio
Que
diga o mundo e a gente o que quiser! /-O que é que isso me faz? ... o que me importa?
... /O frio que trago dentro gela e corta /Tudo que é sonho e graça na mulher!
/ O que é que isso me importa?! Essa tristeza / É menos dor intensa que frieza,
/É um tédio profundo de viver!
Florbela
Espanca não participou dos movimentos revolucionários como outros poetas
famosos da época o fizeram, entre eles Fernando Pessoa. O seu tempo angustiante a submergiu,
percorrendo sua interioridade nostálgica, a densa fenda do inconsciente que
tornara-se permanente em sua cruel agonia. Aprisionada em suas dores rompe em
seus sonetos a intensidade aflitiva de seus sentimentos.
A
maior tortura
Na
vida, para mim, não há deleite. / Ando a chorar convulsa noite e dia .../ E não
tenho uma sombra fugidia /Onde poise a cabeça, onde me deite ! /E nem flor de
lilás tenho que enfeite /A minha atroz, imensa nostalgia! ... /A minha pobre
Mãe tão branca e fria /Deu-me a beber a Mágoa no seu leite!
Quanta
sensibilidade atravessada pela dor espiritual, pela ausência lavrada em seus
versos. A mulher solitária, nostálgica, inconformada por sua incompletude, inconsolável
pelo amor não correspondido, pelos fracassos, as desventuras existenciais. Sofrimento
desconcertante!
Nessa jornada encontrei uma dor
tão grande...tão grande...que chega a ser incompreensível por quem não a passou
ou a sentiu. Foi esse sentimento que apreendi, que confirmei ao ler a poeta. O
não dito pela impossibilidade de dizer...
Refiz conceitos e reorganizei ideias e as certezas despencaram pela incerteza
cruel da idiossincrasia do outro, àquela que nunca chegaremos a conhecer. Esse
instante que não foi fugaz e marcou minha experiência com Florbela Espanca e não
teria como descrevê-la, por ser indescritível.
Escrevo então sobre o que não tenho como
fazê-lo. Grande paradoxo! Mas a jovem poeta me deixou como legado a sua
incrível originalidade, a sua fecunda visão da dor e que eu, na minha maturidade,
pude perceber. Foi lindo e sofrido. Entretanto, indizível no mistério do outro.
Este
trabalho, portanto, não é um ensaio sobre Florbela, um estudo sobre sua
genialidade poética. Levaria páginas e páginas, pois são tantos os ângulos e
abordagens! É uma fonte de pesquisa e estudos intermináveis. Não tive, em
nenhum instante, essa intenção, mesmo porque teria que mergulhar densamente,
por mais um longo tempo sobre sua obra magnífica. Não sei se a alcançaria.
Registro
tão somente minha mais profunda admiração, meu encontro com o inexplicável, que
inexplicavelmente me tocou e, assim, continuo a ler Florbela e em cada leitura,
em cada poema, encontro sentido e significado por me fazerem refletir sobre a
finitude e o infinito do tempo. Não
morremos, nos diluímos em versos da vida.
Minha noite
Regina Barros Leal
Perdida na
substância do medo, quedo-me diante da dor
Tento romper o
invólucro dos meus pensamentos em desalinho
Busco me alcançar
e rasgo pedaços de mim em busca da inteira razão
Descubro-me na
noite abissal da solidão humana
A depressão me veste em sua forma insensível e
avassaladora
Não encontro nenhuma saída no insensato
desespero
E minha alma
despedaça-se pelo esforço da busca de mim mesma
Temo a vastidão
infinda do desamor
Encontro-me em regiões desérticas, ressequidas
e sem cor.
Um pranto sem fim.
Remédios, copos
vazios, cabeceira desarrumada e meu pente em desuso.
E a angústia
penetra lancinante no meu corpo já extenuado
Madrugada a dentro
enrosco-me em pensamentos delirantes
Encontro a
escuridão dos tempos e a aflição n’alma
Migalhas de vida
em desassossego
Onde estão as
rosas que enternecem e os amores que me preenchem?
E o perfume das
tâmaras distantes? O sorriso da criança? Os beijos dos amantes?
O sol vermelho? Os
ventos de verão?
Movida por algo
indecifrável ainda alcanço a janela do quarto
Esforço
desmesurado. Exaustão.
É dia.
O sol banha meus
cabelos brancos despenteados
A manhã nasce
exalando o perfume das rosas do jardim bem cuidado
A janela aberta e
o cheiro da terra
Na mesa de
cabeceira, os vestígios...
Será que um dia
cantarei a melodia dos anjos?
De repente o sorriso
Regina
Barros Leal
A primavera chega
O sorriso das crianças orvalha a varanda da casa
Correndo os duendes surgem com suas artimanhas malucas
A sonora gargalhada da menina fujona ecoa no salão de festa
O sol adentra o sobrado em sua soberania
Maria corre em alvoroço pela estrada larga
Afoita tenta apanhar os raios de sol que se espalham
Busca colher os
sonhos que esperou durante o inverno
Rigoroso, maltratou os peixes do aquário antigo
Ressecou as papoulas do portão de ferro da velha casa
Machucou as plantas em sua forma gélida, branca e endurecida
E os sonhos se perdem no espaço, quebrados, esvaídos
Maria sorrindo despede-se da brancura da neve
e abre alas para a
primavera vestida de cores.
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Quem sou eu
- REGINA EM VERSO E PROSA
- Fortaleza, Ce, Brazil
- Sou uma jovem senhora que gosta de olhar o mundo de um jeito diferente, buscando encontrar o indecifrável, o indescritível, o inusitado, bem como as coisas simples e belas da vida.