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sábado, 12 de novembro de 2016

O casarão revisitado


O Casarão revisitado
                                 Regina Barros Leal
                                                          
            Silêncio no casarão. Tínhamos ido repartir os objetos: porcelanas, lustres pintados. Ah! Aquela mesinha de vidro. Telefones antigos, retratos, espelhos, cadeiras, dentre outros, que fizeram parte de nossa história. Estávamos desajeitados. A ampla sala, palco de muitos encontros, desnudada, refletia o abandono. O casarão tinha sido comprado e certamente seria demolido.
             Sentamos e olhamo-nos como que perguntando por onde começar.  Um tempo silencioso... Marejado de reminiscências. Depois, como que para quebrar o gelo, iniciamos a partilha. Contingência. Tivemos que nos desfazer do casarão. Era uma satisfação miúda, misturada à melancolia, mas sutilmente afugentada pela satisfação de outras necessidades resolvidas.
            Enquanto meus irmãos conversavam, subi ao meu antigo quarto, colcha branca, protetora e repousante, refúgio de júbilo e aflições não ditas. As janelas descortinadas deixavam entrar os últimos raios de sol daquele fim de tarde. Recordei passagens singulares Comecei a rebuscar minhas lembranças infantis: estórias povoadas de fadas, bruxas, princesas, piratas, fantasmas. Evocações permeadas de uma alegria medrosa. Coisas de criança. Buliçosamente, entrevi meu passado povoado de fantasias.
            Insisti. Reencontrei minha infância, saudável, naquele casarão, com minha família, onde vivi minhas experiências de criança privilegiada. Não faltavam chocolates, doces, brinquedos, nem tampouco amor. Que lembranças! Jogando “mãos ao alto” com meus irmãos, brincando de adulto, organizando peças de teatro. Eu, então, alegrava-me muito ao cantar. Naquela época, meus pais armavam um palco numa garagem bastante espaçosa, com cortina de veludo vermelho, tablado, tudo a que se tinha direito, e convidavam a família. Meus tios elogiavam a atuação dos seus pequenos artistas, alguns meio atrapalhados, pequenos iniciantes amadores. Era um momento mágico onde a fantasia corria pelos campos da imaginação. Quase indescritível.
            Como saboreava aquelas tardes compridas que se encontravam com a noite que chegava de mansinho! O entardecer.  Recordo-as, nitidamente.  Foram de uma beleza, ímpar porque permeados pela magia dos sonhos e dos folguedos infantis. Rir, saltar, correr, pular de corda, andar de bicicleta... Tudo isso naquele espaço enorme onde meu pai construíra o casarão. Ah! Meu pai. Homem inteligente. Personalidade marcante. Sujeito avançado, criativo, lépido e determinado. Seu legado de força influenciaria nossas vidas para sempre. Ele se eternizou em cada um de nós.
            As recordações brotam. Meus 15 anos! Adolescência. Os fortuitos namoros, as mãos trêmulas, os medos, as primeiras descobertas, o primeiro beijo. As serenatas!  As canções apaixonadas e os corações saltitando sob as camisolas de seda. Janelas descerradas e olhares de paixão. . Ali escutávamos os trovadores juvenis Minha mãe, doce criatura, compartilhava de nossas emoções. Sua presença confundia-se com a beleza da noite. Afetuosa mulher
             18 anos! O caminho das rosas que perfumam e ferem as almas com seus voos vazantes. Descobertas adultas e corpo de mulher. Pensamentos e sonhos impudentes!  Tempo dos ventos de verão, das tormentas, do paraíso florido pelos sonhos fartos e generosos. Fred, Marcelo povoavam meus devaneios. Mas a efemeridade os jogou pelas fendas do tempo.  Lembrou Victor Hugo: “Sede como os pássaros que, ao pousarem um instante sobre ramos muito leves, sentem-nos ceder, mas cantam! Eles sabem que possuem asas”. Iria voar nas asas das quimeras e adentrar os momentos de fragilidade e transcender o cotidiano na preciosa imaginação e na singular fantasia. 
             Na penumbra do quarto, repassei minha vida e chorei!  Não só pela despedida do casarão, mas pelo adeus ao tempo, aos tropeços da meninada, as esgarçadas relações que se diluíram na distancia. Chorei pelos amores perdidos, as intrigas não resolvidas, os perdões esquecidos. Entretanto sorri, gargalhei com a primavera dos amores correspondidos, sorri com a chuva de prata dos dias de lua cheia em que namorávamos escondidos, das sessões da tarde, das missas assistidas. Éramos felizes.
            Ouvi alguém me chamando:
-           Lucia, estamos esperando, desça. Era meu irmão mais velho. Senti sua voz trêmula, inconfundível. Ele sempre foi muito emotivo.
-           Já estou indo! Respondi um pouco desorientada pelo brusco retorno ao presente.
            Fui descendo a escada de mármore. Era tão bem cuidada por minha mãe! Aquele mármore branco, reluzente, já desfeito pelo desgaste do desuso.
            Olhei para todos e percebi o quão estavam perturbados. Quem sabe, não fizeram o mesmo percurso? Meus irmãos, crianças de outrora, companheiros de brincadeiras. Hoje, parceiros da saudade.
            Saímos devagar. Ronceiros. Despedidas murmuradas. Rostos entristecidos. Gestos vagarosos.
            Chegando a casa fui guardar os objetos, testemunhos silenciosos de minha história. Não foi fácil vender o casarão, herança de nossos pais, local vivo de muitas recordações. Nós, inquilinos do passado, pagamos um melancólico tributo pela nossa despedida.

             Nessa noite, quase não dormi.  

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Mistério da fé
                            Regina Barros Leal

Imenso como as ondas revoltas
O sentimento envolve minha alma
Vejo luzes nas faíscas do tempo
Tento alcança-las, estendendo as mãos
Um gesto de complacência!
E a fé resplandece em meu intimo
Consigo mover meus braços que se alongam
E as mãos se fecham  
Meu corpo em oração, queda-se diante do sublime
Da infinita sabedoria
Do absurdo
Do inexplicável

Sentimento de amor a Deus

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

APRESENTAÇÃO DE "CHICO COBRA E SUAS ANDANÇAS:" LIVRO DE SÁVIA FERRAZ

BOA NOITE A TODOS!
EM ESPECIAL À FAMILIA  PEREZ E BESSA E , PARTICULARMENTE, AO SR. FRANCISCO BESSA
BOA NOITE! A  MINHA AMIGA E  ESCRITORA SÁVIA FERRAZ,  A QUEM ADMIRO E TENHO CARINHO FRATERNAL.
UMA  MULHER DE RARA SENSIBILIDADE!
A ELA MEUS SINCEROS PARABÉNS!
O LIVRO ESTÁ ESCRITO COM “BORBULHAS DE AMOR” , PARAFRASEANDO FAGNER”.

RESSALTO, AINDA, MINHA ALEGRIA EM PARTICIPAR DESSA EXUBERANTE FESTA, REGADA DE  INCOMPARÁVEL AFETO FAMILIAR.

INICIO AFIRMANDO
“ CHICO COBRA E SUAS ANDANÇAS: MEMÓRIAS DE FRANCISCO BESSA

RATIFICA A ESPECIAL HABILIDADE ESTÉTICA E POÉTICA DA ESCRITORA SÁVIA FERRAZ, CONFIRMANDO A FELIZ OPÇÃO DA FAMÍLIA PEREZ E BESSA AO ESCOLHER SÁVIA PARA ESCREVER A BIOGRAFIA DO EXITOSO PROPRIETÁRIO DA EMPRESA EVEÍZA.

             A ESCRITORA CONSEGUE NARRAR  OS EVENTOS, AS ESTÓRIAS DIVERTIDAS, AS DIVERSAS EMOÇÕES, AS AVENTURAS E DESVENTURAS, AS ALEGRIAS E AS PERDAS, OS ACERTOS E DESACERTOS, NUMA NARRATIVA EMBEBIDA DE SIGNIFICADOS AFETIVOS.
           
A DOR SE DESVANECE E A ESPERANÇA PREENCHE OS SONHOS REALIZADOS DO BIOGRAFADO.

            A AUTORA APREENDEU OS SENTIDOS PRESENTES NA HISTÓRIA DO BESSA (COMO ASSIM O TRATA EM SUA OBRA), ABSORVEU AO LONGO DE SUA PESQUISA INCANSÁVEL, A SENSIBILIDADE DE UM HOMEM QUE NASCEU EM CONDIÇÕES DESFAVORÁVEIS: NORDESTINO, POBRE, MIGRANTE, ASSINALANDO UMA EXISTÊNCIA QUE SINTETIZA MÚLTIPLAS DETERMINAÇÕES.

            NO ENTANTO, SÁVIA DESTACA:

 A CORAGEM, A ESPERANÇA, A PERSEVERANÇA, A GENEROSIDADE, O ALTRUÍSMO DE BESSA, RELATANDO QUE,  DESDE DE CRIANÇA, ELE ENFRENTOU CONDIÇÕES ADVERSAS, REALIZANDO UM PERCURSO DE CONQUISTAS, COM A TENACIDADE, A INTELIGÊNCIA E A PERSPICÁCIA DE POUCOS.
           
            A ESCRITORA REALÇA O ITINERÁRIO DE BESSA, QUE, DESVENCILHANDO-SE  DAS AMARRAS IMPOSTAS POR  SUA CONDIÇÃO SOCIAL, FERIU O CORPO, VIVENCIOU AFLIÇÕES, ABASTECEU- SE DE IDEIAS CRIATIVAS E AGREGOU EXPERIÊNCIAS INUSITADAS.

            A BIOGRAFIA DE BESSA,  HOJE COM 76 ANOS, É EXTENSA E CHEIA DE ESTÓRIAS SINGULARES, PASSAGENS JOCOSAS, AVENTURAS E DESAFIOS,  SITUAÇÕES DESCRITAS,  COM ESMERO,  PELA AUTORA.
           
            SEGUNDO SÁVIA, BESSA EDIFICOU UMA VIDA EM QUE A FAMÍLIA IMPULSIONOU OS SEUS SONHOS ARROJADOS. NESSA JORNADA INCANSÁVEL, ATRAVESSOU A AMAZÔNIA, OS SERINGAIS, A DENSA FLORESTA, SUPEROU MEDOS, HUMILHAÇÕES, GARGALHOU E AMOU, VIVENCIANDO PECULIARES CIRCUNSTÂNCIAS E, AO APROVEITAR AS OPORTUNIDADES, CONSEGUIU ALÇAR GRANDES VOOS, TRANSCENDENDO O COTIDIANO ATRIBULADO.
DIZ SÁVIA:
“ BESSA TEM SUA HISTÓRIA MARCADA PELO LEITE ESCORRENDO DAS SERINGUEIRAS, PELO VALOR DO TRABALHO EXAUSTIVO, NUM CLIMA ADVERSO, ONDE IMPERAVA A LEI DO MAIS FORTE”.
            AO OPINAR SOBRE SUA VIDA, BESSA RATIFICA O QUE SÁVIA CONSTRÓI AO LONGO DE SUA NARRATIVA:
 O COMPROMISSO FAMILIAR.

SEMPRE PAUTEI A MINHA EXISTÊNCIA CENTRADA NA FAMÍLIA”... APRENDI A VIVER E A VALORIZAR A SIMPLICIDADE. FUI CRESCENDO AOS POUCOS E DEVO MUITO, TUDO O QUE CONQUISTEI, À MINHA ESPOSA E COMPANHEIRA QUE SONHOU E ACREDITOU EM MIM.

            SEU DEPOIMENTO ASSINALA O AMOR, A ADMIRAÇÃO, POR SUA ESPOSA, BELKISS, COMO BEM EXPRESSA  PABLO NERUDA:

DESDE ENTÃO, SOU PORQUE TU ÉS
E DESDE ENTÃO ÉS
SOU E SOMOS...
E POR AMOR
SEREI.... SERÁS.... SEREMOS

            O MARIDO E COMPANHEIRO DE TODAS AS HORAS, O PAI, O IRMÃO SINCERO, O AVÔ AMADO, O AMIGO FIEL, O PATRÃO AFÁVEL E GENEROSO SÃO VISÍVEIS NOS  DEPOIMENTOS.

            GRATIDÃO E RECONHECIMENTO PERMEIAM AS FALAS DOS ENTREVISTADOS POR SÁVIA.
            RECORTANDO ESSE CENÁRIO DE AFETOS, TOMO A LIBERDADE DE DESTACAR OS RELATOS DOS NETOS,  TERNAS DECLARAÇÕES DE AMOR AO  AVÔ:
            VITÓRIA FALA “ PARA MIM, O VOVÔ É A REPRESENTAÇÃO DA BONDADE E HUMILDADE E É UMA PESSOA IMPORTANTE PARA TODOS NÓS” 
            ARTHUR REAFIRMA “ VÔ AMO VOCÊ E QUERO QUE O SENHOR VIVA MUITOS E MUITOS ANOS JUNTO A MIM.
            LARISSA EXPRESSA “ PARA MIM, MEU AVÔ BESSA É UM DOS MAIS IMPORTANTES DESSE MUNDO E SUA VIDA É UM EXEMPLO.
            PAULO RECONHECE “ MEU AVÔ BESSA É UM GRANDE HOMEM! É EXEMPLO DE DIGNIDADE PARA TODOS”.
            GUILHERME DIZ “MEU AVÔ É MUITO LEGAL E SEMPRE DEU ATENÇÃO E CARINHO. NÃO QUERO QUE MUDE. GOSTO DO JEITO QUE ELE ME TRATA E TRATA AS PESSOAS.... “
           
        BELKISS, A ESPOSA, OS FILHOS MOÍZA, EVELINE,  ADELINO, SERGIO, SHIRLEY;  NETOS E IRMÃOS  CONFIRMAM O QUE ESCREVE CORA CORALINA:

“ A VERDADEIRA CORAGEM É IR ATRÁS DE SEUS SONHOS MESMO QUANDO TODOS DIZEM QUE ELE É IMPOSSÍVEL. ”

                 A BIOGRAFIA DE BESSA, NOS FAZ ACREDITAR NA DIMENSÃO DE POSSIBILIDADES, NA CONSTRUÇÃO DE SONHOS QUE PODEM SER ALCANÇADOS, NA BELEZA DA UNIÃO FAMILIAR, SOBRETUDO, NO PRAZER DO COMPARTILHAMENTO, COMO O ALMOÇO EM FAMÍLIA, CONCRETIZANDO AS RELAÇÕES DE AMOR QUE MARCAM A HISTÓRIA DOS PEREZ E BESSA

 SOBRETUDO,  COMO BEM ESCREVE SÁVIA:
,
                  “NA CONSTRUÇÃO DA EMPRESA EVEÍZA QUE PROMOVE INSERÇÃO, CRESCIMENTO E VALORIZAÇÃO DO TRABALHO CRIATIVO DO POVO DO CEARÁ”.

                 A BIÓGRAFA, TRANSITA PELA VIDA DO BESSA COM LEVEZA E ENTUSIASMO AO REGISTRAR :

A SUA VIDA REPRESENTA UM EXEMPLO PARA OS QUE ESTÃO INICIANDO A CAMINHADA; UM ESTÍMULO PARA OS QUE JÁ PERCORREM O CAMINHO; UM SINAL DE QUE O ESFORÇO, O EMPENHO, A FÉ, A PERSEVERANÇA E O TRABALHO CONTINUADO, PODEM CONTRIBUIR DECISIVAMENTE PARA O SUCESSO...”

                 SÁVIA FINALIZA,  EXPRESSANDO COM  INTENSIDADE, A SINCERA ADMIRAÇÃO POR BESSA , RECONHECENDO-O COMO “ O MEU HERÓI”.
             CONCLUO, PARABENIZANDO SÁVIA, QUE NOS INSTIGA, EM SUA OBRA, “ CHICO COBRA E SUAS ANDANÇAS”  A CONHECER O TRAJETO DE ESPINHOS A LÍRIOS, PERCORRIDOS POR FRANCISCO DE ASSIS BESSA.

OBRIGADA PEA ATENÇÃO!!    


quarta-feira, 30 de março de 2016

Combatente

Combatente

                    Regina Barros Leal

Rompendo o invólucro da opressão
Ergue seu corpo numímpeto e grita!
Liberdade! Liberdade!
Canta a esperança! Nasce a mulher!
Rompante! Forte, feminina, intrépida!
Entoa a canção dos combatentes
Ergue os braços com vigor e brada: Liberdade!
Vigorosa e atenta da história marcada de aflição
Nas ruelas escondidas, nos refúgios compartilhados, nos diálogos entrecortados de gemidos…Dores e risos.
Grilhões rompidos e vestes rasgadas
Nua de preconceitos, dança ao som dos ventos
Liberdade...Liberdade!
E a luta continua em outros cantos e recantos
Resiliente
Contra a opressao silente.

O jugo indiferente!

sábado, 5 de março de 2016

Minha fé

Minha  fé
                                               Regina Barros Leal

Minha alma cantante expressa a melodias da esperança
Meu som vibrante grita de entusiasmo o amor!
Meu corpo vigoroso pela fé, refugia-se na valente decisão
E a fé me acompanha, e eu caminho...
Enfrento o desamor e busco o afeto generoso
Repudio a indiferença e trago a ternura dos fortes como companheira
E meu sol brilha no céu brilhante dos que amam e confiam
Minhas vestes brancas revelam a pureza da luta e da entrega
Rejuvenescida canto louvor a Deus
Reconheço a infinita compaixão divina
Brindo a coragem dos combatentes
Quebranto-me diante do grande amor
Louvo ao Senhor
Entrego-me inteira
Rendida pela infinita fé.


sábado, 17 de outubro de 2015

O RITUAL


O RITUAL 

                                  Regina Barros Leal

         O portão de ferro abrindo-se. As pessoas chegando...O dia começara. Eram 8 horas da manhã. De cada um que entrava, ouviam-se variados cumprimentos: Oi!  Bom dia! Olá! Como vai? ... E outras, apenas manifestando gestos de aceno com as mãos, movimentos com o corpo inteiro, ora harmoniosos, ora desajeitados.... Elas encontravam um jeito peculiar de expressar sua chegança.

         Durante um determinado tempo observei, espreitei, e, aos poucos, fui me envolvendo com a atmosfera intrigante, vivenciando intensamente a experiência. Dei-me conta das expressões dos que chegavam: rostos alegres, sisudos, descontraídos e alguns ansiosos.... Outros rostos fechados e impenetráveis, alguns carregando um certo ar de cansaço, como quem passara uma noite insone.  Percebi, outrossim, trejeitos de quem acordou cedo e já fizera um montão de coisas e ao chegar, rapidamente, procurava assento, soltando o corpo pesadamente. À medida que ia aprofundado o meu olhar curioso, vi gestos familiares, reconheci hábitos e manifestações humanas, mesmo porque o rito do iniciar, do começar o dia, acontece em todos os lugares, embora em tempo, em cantos e formas culturalmente diversas.

         Remeto-me ao passado. Revivi também o amanhecer no casarão.... Que lembranças! O galo cantando anunciando o amanhecer; o cheiro de leite mugido, o barulho dos patos no tanque ao lado, as portas e as janelas sendo abertas, deixando o sol entrar e banhar o ambiente da energia do calor matinal. Grandes e pesadas portas abrindo-se para dar passagem ao dia que chegava. Uma prática cotidiana inconfundível!

         Meus pais, embora urbanizados pelo tempo na cidade e pela contenda diária, não deixaram de cultivar os hábitos do campo e conseguiram mantê-los em família. Recordo-me do café da manhã: uma mesa sempre farta de cuscuz, bolo de milho, canjica, queijo, pamonha, leite fresco bem-fervido e a coalhada que meu pai não dispensava de sua primeira refeição. E o café! Ah! Um café gostoso, torrado no pilão! Ainda consigo sentir aquele especial cheiro que invadia o casarão.

         Na cozinha espaçosa, no grande fogão, as grandes chaleiras fervendas. Os panos limpos de coar café, segurados por pequenas varetas de madeira roliça, eram arrumados de um jeito especial, colocados dentro de uma panela para não se sujarem. Questão de zelo e higiene! Muitos dos que lá trabalhavam faziam o desjejum no casarão.

         No quintal, o canto dos pássaros. A beleza das plantas orvalhadas... Era a natureza que cumprimentava a humanidade. O grande quintal era um local prazeroso, com frutas variadas: seriguela, caju, mamão, coco, banana prata, goiaba e outras mais.

Além disso, tínhamos duas vacas, dois bezerros e o mais curioso era ao amanhecer o dia, a criançada, cada um com um copo de alumínio (gravado o nome), esperando a sua vez para tomar o leite mugido. Obrigação. Meus irmãos e primos, tanto quanto eu, não gostávamos da ordem paterna. Ali estávamos postados na fila do leite. Essa cena se faz nitidamente presente em minha memória.

Consigo, ainda, com nitidez, rever as imagens daquelas manhãs.

           Compondo o quadro, as moças trabalhadeiras, pois eram umas cinco, já de vassouras nas mãos e aventais coloridos se espalhavam pelo casarão iniciando as suas atividades domésticas. Em cima de uma mesa redonda, com tampa de mármore e pés de ferro e a pintura de duas negras de tranças amarradas com fitas coloridas, colocavam-se grandes tachos de cobre cheios de goiabas brancas e vermelhas, devidamente separadas e descascadas. Um ritual semanal, os preparativos.

 Depois, no pátio ao lado, os grandes tachos eram colocados em fogões de carvão, improvisados para a feitura do doce. Jamais esquecerei as borbulhas do doce cozinhando e as enormes colheres de pau manuseadas pelas meninas em gestos circulares. O aroma agradável! Olho, e visualizo a imagem da jeitosa Justina: moça branca, bonita, uma das responsáveis pela cozinha. Grata imagem de um tempo que se foi!

 Minha mãe, com seu jeito manso, porém firme, coordenava todos no começo do dia. No espaçoso quarto da casa, organizadas impecavelmente em cima da cama de casal, encontravam-se as roupas de meu pai: camisas, gravatas, meias, lenços de linho branco dentre outros acessórios. Ao lado da cama, os sapatos, quase todos pretos, estavam sempre bem lustrados. Meu pai era um homem franzino, pequeno, mas, elegante e vaidoso. Tudo lhe era dado. Minha mãe, a prestimosa mulher, fazia-lhe festas e gentilezas. Era um homem especial! Na mesa, o peito de frango, aliás, os melhores pedaços, sempre lhe foram reservados. Tudo nos parecia natural e aceitável. Era o chefe da casa.

 E a grande mesa redonda! Revolucionária para a época, porque tinha um expositor giratório. Não pedíamos os pratos e bandejas de comida, apenas rodávamos a redonda tábua giratória e lá estavam os quitutes de Justina. Na hora do almoço, a atenção respeitosa, a famosa hora da conversa, da prestação de contas, das novidades do dia, das traquinagens da criançada, inclusive. Um ritual familiar inesquecível.

         Revejo, também, o pátio avarandado. Naquele lugar, tão cuidadosamente construído, armávamos redes, jogávamos damas, dançávamos quadrilha, e brincávamos de tudo que pertencia ao nosso universo lúdico. Belas recordações!

          De repente, alguém me chama:
-       A reunião vai começar, você não vem?
-       Claro que vou. Respondi à minha atenciosa e pequenina amiga.
Levantei-me, e segurando os meus alfarrábios, fui caminhando lentamente para a sala. Todos já estavam acomodados: os que chegaram entreolhavam-se e acolhiam a pequena senhora, a intrusa do dia. Mas, por ter sido bem-recebida, compartilhei. Não sei ainda por que... mas senti-me estranha naquela manhã...

          Daí, resolvi escrever.



quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Florbela Espanca- a mulher

Florbela Espanca- a mulher
                                                                       Regina Barros Leal



            Início minha reflexão sobre a escritora Florbela Espanca que gemeu de dor, derramando-se em gotas de amargura, mas de uma beleza etérea em seus versos sofridos, como numa das estrofes de “Silêncio!”.
No fadário que é meu, neste penar/Noite alta, noite escura, noite morta,/Sou o vento que geme e quer entrar,/Sou o vento que vai bater-te à porta...

Não vou historiar sobre a biografia de Florbela Espanca, sobretudo porque já existem fascinantes estudos sobre a poeta que, ao despedir-se tão jovem da vida, aos trinta e seis anos, encerrou sua magnifica obra literária.
 Escolhi discorrer sobre os sentidos, a resistência, a beleza e o significado que a poetisa deixou como legado para os que apreciam o seu estilo e sua força telúrica. Seus poemas retratam a mulher, o ser angustiante, a depressão que chega ao lirismo na sua expressão genuína.
Florbela Espanca me chamou atenção há certo tempo. Seus poemas, a leitura do Livro de Mágoa” me instigou a ler mais sobre a autora, sua biografia, sua obra. Pasma diante de extasiante beleza, de tamanha amargura, quedei-me a fascinação de seus versos idiossincráticos. Fui lendo...lendo e à medida em que lia apaixonava-me pela mulher resistente aos preconceitos e normas. Vi um ser diferente que, ao contrariar códigos, mudou o rumo de sua vida nascente. Apaixonou-se perdidamente, vivenciou dores intensas em sua curta vida, de tal forma singular que a concluiu entregando-se à morte.
Não vou discorrer sobre suas escolhas, suas dores particulares, mas sobre como e quando seus versos me tocaram a alma, os sentidos e os significados para quem leu Florbela Espanca na maturidade da vida. Busquei ao conhecê-la, no sentido profundo que transcende a leitura biográfica, encontrar   minha essência feminina e poética,
 Expresso, pois, emoções pessoais. Li a autora procurando compreender o finito e o infinito do ser, numa procura do indecifrável, da definição do abismal sentimento de solidão. Foi ela, a mulher, a sua saudade sufocante, o amor que a envolveu e a dominou, a rejeição, a desilusão, a dor expressa de maneira inexplicavelmente bela e suas diferentes vestimentas que me aproximaram da poetisa. A mulher que cultivou a paixão no seu extremo, o amor em sua grandeza, a amargura na sua força devastadora, sem perder a beleza estética de sua narrativa.
Desejava descobrir um registro literário de emoções humanas avassaladoras, de atitudes femininas transgressoras, da rebeldia manifesta contra os esgarçados preconceitos, as perdas existenciais e sociais retratadas poeticamente.
  ‘Vacilando entre a moral e o preconceito e a beleza própria do poema, a poesia de Florbela teve um frio acolhimentodurante sua vida. Constatamos a história, “a relação mecanicista vida e obra, que se desenrolou em torno da poeta; tudo muito bem contado, com a base sólida da pesquisa séria de Maria Lúcia Dal Farra em Poemas de Florbela Espanca (Martins Fontes Editora). Retratou  Gerana Damulakis.


Encantada com sua obra enveredei pela leitura de seus poemas e encontrei retornos pessoais, encontros inusitados entre a leitora e a autora, instigada e entusiasmada pela beleza que, ela, tão singularmente nos faz encontrar em seus versos doídos.
Amar
Eu quero amar, amar perdidamente! / Amar só por amar: Aqui... além.../ Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente.../ Amar! Amar! E não amar ninguém! / / Recordar? Esquecer? Indiferente! / Prender ou...
Tédio
Que diga o mundo e a gente o que quiser! /-O que é que isso me faz? ... o que me importa? ... /O frio que trago dentro gela e corta /Tudo que é sonho e graça na mulher! / O que é que isso me importa?! Essa tristeza / É menos dor intensa que frieza, /É um tédio profundo de viver!


Florbela Espanca não participou dos movimentos revolucionários como outros poetas famosos da época o fizeram, entre eles Fernando Pessoa.  O seu tempo angustiante a submergiu, percorrendo sua interioridade nostálgica, a densa fenda do inconsciente que tornara-se permanente em sua cruel agonia. Aprisionada em suas dores rompe em seus sonetos a intensidade aflitiva de seus sentimentos.
                                                          
A maior tortura        
Na vida, para mim, não há deleite. / Ando a chorar convulsa noite e dia .../ E não tenho uma sombra fugidia /Onde poise a cabeça, onde me deite ! /E nem flor de lilás tenho que enfeite /A minha atroz, imensa nostalgia! ... /A minha pobre Mãe tão branca e fria /Deu-me a beber a Mágoa no seu leite!
 Quanta sensibilidade atravessada pela dor espiritual, pela ausência lavrada em seus versos. A mulher solitária, nostálgica, inconformada por sua incompletude, inconsolável pelo amor não correspondido, pelos fracassos, as desventuras existenciais. Sofrimento desconcertante!
               Nessa jornada encontrei uma dor tão grande...tão grande...que chega a ser incompreensível por quem não a passou ou a sentiu. Foi esse sentimento que apreendi, que confirmei ao ler a poeta. O não dito pela impossibilidade de dizer...  Refiz conceitos e reorganizei ideias e as certezas despencaram pela incerteza cruel da idiossincrasia do outro, àquela que nunca chegaremos a conhecer. Esse instante que não foi fugaz e marcou minha experiência com Florbela Espanca e não teria como descrevê-la, por ser indescritível.
  Escrevo então sobre o que não tenho como fazê-lo. Grande paradoxo! Mas a jovem poeta me deixou como legado a sua incrível originalidade, a sua fecunda visão da dor e que eu, na minha maturidade, pude perceber. Foi lindo e sofrido. Entretanto, indizível no mistério do outro.
Este trabalho, portanto, não é um ensaio sobre Florbela, um estudo sobre sua genialidade poética. Levaria páginas e páginas, pois são tantos os ângulos e abordagens! É uma fonte de pesquisa e estudos intermináveis. Não tive, em nenhum instante, essa intenção, mesmo porque teria que mergulhar densamente, por mais um longo tempo sobre sua obra magnífica.  Não sei se a alcançaria.

Registro tão somente minha mais profunda admiração, meu encontro com o inexplicável, que inexplicavelmente me tocou e, assim, continuo a ler Florbela e em cada leitura, em cada poema, encontro sentido e significado por me fazerem refletir sobre a finitude e o infinito do tempo. Não morremos, nos diluímos em versos da vida.
Minha noite 
                        Regina Barros Leal

Perdida na substância do medo, quedo-me diante da dor
Tento romper o invólucro dos meus pensamentos em desalinho
Busco me alcançar e rasgo pedaços de mim em busca da inteira razão
Descubro-me na noite abissal da solidão humana
 A depressão me veste em sua forma insensível e avassaladora
 Não encontro nenhuma saída no insensato desespero
E minha alma despedaça-se pelo esforço da busca de mim mesma
Temo a vastidão infinda do desamor
 Encontro-me em regiões desérticas, ressequidas e sem cor.
Um pranto sem fim.
Remédios, copos vazios, cabeceira desarrumada e meu pente em desuso.
E a angústia penetra lancinante no meu corpo já extenuado
Madrugada a dentro enrosco-me em pensamentos delirantes
Encontro a escuridão dos tempos e a aflição n’alma   
Migalhas de vida em desassossego
Onde estão as rosas que enternecem e os amores que me preenchem?
E o perfume das tâmaras distantes? O sorriso da criança? Os beijos dos amantes?
O sol vermelho? Os ventos de verão?
Movida por algo indecifrável ainda alcanço a janela do quarto
Esforço desmesurado. Exaustão.
É dia.
O sol banha meus cabelos brancos despenteados
A manhã nasce exalando o perfume das rosas do jardim bem cuidado
A janela aberta e o cheiro da terra
Na mesa de cabeceira, os vestígios...
Será que um dia cantarei a melodia dos anjos?

De repente o sorriso
                                                               Regina Barros Leal

A primavera chega
O sorriso das crianças orvalha a varanda da casa
Correndo os duendes surgem com suas artimanhas malucas
A sonora gargalhada da menina fujona ecoa no salão de festa
O sol adentra o sobrado em sua soberania
Maria corre em alvoroço pela estrada larga
Afoita tenta apanhar os raios de sol que se espalham
Busca  colher os sonhos que esperou durante o inverno
Rigoroso, maltratou os peixes do aquário antigo
Ressecou as papoulas do portão de ferro da velha casa
Machucou as plantas em sua forma gélida, branca e endurecida
E os sonhos se perdem no espaço, quebrados, esvaídos
Maria sorrindo despede-se da brancura da neve
 e abre alas para a primavera vestida de cores.

Quem sou eu

Minha foto
Fortaleza, Ce, Brazil
Sou uma jovem senhora que gosta de olhar o mundo de um jeito diferente, buscando encontrar o indecifrável, o indescritível, o inusitado, bem como as coisas simples e belas da vida.